Faltou pouco. A bola resvalou do lado da trave e saiu pela linha de fundo. Na saída do campo, justificou, argumentando que a única coisa que faltou foi sorte.
Já na sua casa, deitado na cama, o olhar perdido na única cor, bege, do teto e a tv ligada no programa de esportes. O gol do tudo ou nada, crucial para o desfecho de um campeonato inteiro. Trocou de canal, preferiu ver noticias sobre as enchentes no Norte. Levantou e tomou um trago de cachaça. Lembrou dos tempos distantes. Não havia enchentes no Norte. Quis refrescar a cabeça e não conseguiu, pensou em ir pra zona, mas não era dia.
Um telefone tocou, do outro lado da linha uma voz áspera, como se pedindo esmolas perto de um restaurante.
- Jair, vem pro treino rapaz, precisamos de você para o próximo jogo.
Seu Antonio, roupeiro do time há mais de vinte anos, era mais que um psicólogo para o grupo. Entendia cada problema dos jogadores côo se já estivsse vivido aquilo tudo.
De fato no próximo jogo Jair poderia ser decisivo, fazer os gols que tirariam a vantagem do adversário.
Treinou, mais treinou pouco. Quis sentir a atmosfera da partida. Na véspera do jogo, ficou em casa. Comeu pouco, bebeu muita água e se concentrou. A tv não ligava, queria ficar ao máximo no seu mundo.
Ao chegar no estadio se sentiu especial, como se estivesse sido escolhido para ser o protagonista dessa historia que contava com mais de 80 mil pessoas.
O apito agudo rompeu o silencio interno que isolava o som da arquibancada. Era o momento.
Jogo duro. Jair joga, Junior se joga, o juiz deixa jogar. Jair com a bola, que rola para Roque, que pensa no toque, mas prefere passar. Passa no pé de Baltazar, que olha pro lado e perde pra Valdo, que passa de um, passa de dois, olha pro lado, tabela, recebe adiantado, passa mais um, é trombado e quando esta pra cair, Jair, Jair é o nome do gol, num lance de puro oportunismo, com o lado de dentro do pé, sacode a rede e sai para comemorar. Aqueles 5 segundos parecem uma eternidade. Tudo em câmera lenta, o som equilibrado e musical da torcida como se fosse um coro, a palma da mão no peito, forte, cheio de si.
Tem dias que a sorte não acompanha, mas para algumas pessoas ela só aparece na hora certa.
F. Goes, publicitário, malandro e vagal nas horas vagas
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Uhmm... na verdade,