O restaurante como sempre, tinha a mesma oferta de comida abundante por um preço acessivel. As mesas usualmente estavam cheias, e vez ou outra ele tinha que subir ao andar segundo, para encontrar um lugar vago. Depois d'escolhida-a-dedo sua refeição, recebeu os cumprimentos da moça do caixa, sempre piscando aqueles dois olhos azuis com toda a força que tinha - e dela amealhou seu diário e inexcedível suco de laranja.
Muitas conversas gravitando em volta. Poucos olhares, muitas bocas mastigando e outras, inconvenientes galardeando.
Algumas dessas bocas teriam dito o que acabara de dizer? Teriam, os donos daquelas mãos todas que tilintavam talheres tipicamente, feito o que havia realizado ha pouco? Onde estariam aqueles, cujos olhares agora repousavam em suas seguras vale-refeições, há quinze minutos atrás?
Com toda a certeza, a grande maioria estivera vivendo mais um dia de suas vidas hodiernas. Alguns poucos, quem sabe, tenham se aproximado, de um evento tão primordial e crepuscular em suas vidas, quanto o que lhe tinha ocorrido.
Voltou para casa. Não pode desviar o olhar da árvore, adentrando sua sala. Lá estava, o imenso desserviço que lhe fora impingido pelo favor, aquele favor que lhe custara tanto. Como se arrependia! Se pudesse voltar ao tempo passado diria a ela mil vezes não. Mas já havia realizado o intento sabendo das suas consequencias. Por isso disse à vizinha e a seus lábios (dignos) que amorteciam cada palavra pronunciada que sim, que esperaria por seu conjuge, namorado, ou parceiro à revelia de qualquer síndrome moderna de comprometimento.
Não raciocinava e nem mesmo encontrava lógica no que o levou a acatar com severa e estrita abnegação um pedido tão simples e inocente de sua parceira de andar. Trançava nos corredores e na escada com ela há três anos e quatro meses, mas tropeçaram em pouco mais de cinco frases desconexas durante todo esse período.
Agora, enxergava como tinha sido infanto-juvenil. Qualquer tentativa de aproximação não seria feita sendo cooptado para eventos que incluissem o supracitado sujeito de pouca ou nenhuma estirpe. Vinha sempre de moto: quando chovia e estava molhado, molhava o chão e pouco se importava; falava alto e o cumprimentava como se fossem antiquados conhecidos. Um grande imbecil. Havia, de qualquer modo, concordado em esperá-lo para entregar-lhe certa encomenda, uma vez que a vizinha precisava - correndo - correr até o correio, ou a carta de natal não chegaria à casa de sua avó - mora sozinha em Maria da Fé, tem uma pequena venda de suas rendas que garante um sustento, e claro, tem também a pensão do avô, mas continua com diabetes e a artrose que lhe tira qualquer admiração pelo hoje ou confiança no amanhã - fato obviamente mais importante, comprovado que foi após a exposição, do que o evento entrecortado em sua agenda pela entrega da roupa suja na lavanderia e o almoço no restaurante.
Enfim, abdicou de sua programação, para dar ensejo aos anseios da vetusta vizinha. Esperou no sofá de plástico que imitava couro, e que no calor, grudava o corpo com o próprio suor - coisa medonha - mas que incorporava o espírito reinante naquela residência, o do desleixo. Não compreendia como podia, morando sozinha, comprar um pacote de seis pães de hamburgueres, quatro dos quais agora jaziam na mesa, certamente herdeira de um jantar pouco nutritivo da noite anterior. Olhava para as roupas - numa cena pouco crível - fustigadas no chão, como tapetes! Não entendia como a falta de asseio e organização condiziam com a beleza e a aura atraente de sua correlata residencial. Esperou os dez minutos acertados. Não chegou. Quinze. Não. Aos quase-vinte tocou a campainha, tarde demais para que conseguisse ainda encaixar o que tinha programado fazer naquele horário, mas nem tão tarde para perder a paciência.
Se cumprimentaram com a infame cordialidade costumeira, e logo entregou a ele o pacote. Não esperou por reação alguma, queria ver se ainda conseguia pegar a loja aberta, o vendedor havia dito que se chegasse antes do almoço conseguiria comprá-la. Mas o sujeito não estava disposto a cooperar. Interpelou. Perguntou. O que fazia dentro da casa dela? Pouco tempo para explicações, mas não houve trégua. Pacientemente lhe re-contou todo o processo que já se mostrava odioso. O homem finalmente entendeu e agradeçeu pelo favor.
Quando ia embora, um ataque nervoso foi lhe apercebido nas entranhas. Teve de levantar questão: o que estava no pacote?
- Dois hambúrgueres. Ela fez minha marmita.
Correu com os olhos furiosamente consternados, sabia que não chegaria à loja antes de "Fechada para Almoço". Sabendo já do futuro, nem deveria ter se dado ao trabalho. Mais uma vez, agiu sem o que sempre valorizara, o raciocinio logico perfeito e irredutivel. Correu, correu e narisgou a porta. Havia perdido a chance. Não pode comprar. Por causa de dois hambúrgueres da desleixada vizinha que objetivavam tão somente alimentar aquele capacete espúrio que continha um homenzinho dentro. Voltou à residência. Ela tinha retornado dos correios, e se toque-tocavam na varanda. Gritou. Chingou. Levantou falsos testemunhos e criou vocabulários para atingir, com toda a agrura que sentia, os colhões do sujeito e a honra da vizinha. Conseguiu o que esperava, porque aparentemente os dois ficaram perplexamente petrificados, sem reação, na varanda.
De que adiantava. Havia traído sua rotina. Havia deixado de levar a cabo o que harmoniosamente acontecia há uma década de laborioso zelo. Perdeu a hora do almoço, e perdeu um compromisso agendado, que estava ali! Estava escrito na agenda!
Agora sentia uma sensação de decepção consigo mesmo, enquanto sentava em sua cadeira, mirando a árvore de natal. Era impossível não notar. Tinha deixado apalavrado com o caixa, chegaria antes do almoço para comprá-la, doutra feita, poderia vendê-la para a senhora que havia se quiexado dos altos preços nas concorrentes. Tinha certeza de que chegaria antes do almoço e no pós-almoço estaria com ela ali, enfeitando sua árvore. Agora teria que passar o natal com uma árvore sem estrela na ponta. Sua vizinha e sua falta de lógica lhe custaram muito caro.
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Uhmm... na verdade,