segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Considerações acerca do drible

Que razão me levaria a tal raciocínio não tenho certeza. Veio naturalmente a minha mente, fruto do ócio e da inépcia das férias; e então, mesmo sabendo que posso me arrepender mais tarde por causa de filosofia tão tosca, escrevo sinceramente já que, procedendo de outro modo, estaria me enganando. Sempre defendi o drible. Sempre. Joguei futebol toda a minha vida valorizando mais uma jogada espetacular do que um gol- e há certa justificativa para isso: o gol é o simples momento em que a bola cruza a linha sob as traves após ter sido trabalhada em uma jogada (por mais feia ou eventual que seja). Sendo assim como não apreciar um momento de inspiração, de criatividade autêntica que é a jogada individual, o drible, mesmo que ele não termine como gol? Sempre tentei ser um driblador nas peladas e nos jogos amistosos. Do mesmo modo, já fui driblado muitas vezes. Depois daquela sensação única que é tomar uma caneta ou um chapéu, aquele embaraço que dura apenas uma fração de tempo até o desenrolar da próxima jogada dentro de campo; há também a sensação contrária, de dar o drible, um contentamento, um sentimento de obra bem realizada e acabada, uma vontade de rir inocentemente. E tudo isso é incrível, o drible que você toma hoje é o que você dá amanhã, e por isso, sempre acreditei que um drible cabia em qualquer hora, em qualquer lugar.
Ultimamente, comecei a repensar minha posição sobre o assunto. O drible é, em última instância, a antinomia do futebol, posto que é jogo coletivo. A jogada individual é então, desse ponto de visão, a última cartada, o derradeiro esforço de superar os obstáculos do jogo, utilizando-se apenas uma pequena parcela de todo o potencial disponível - apenas a habilidade de um jogador em detrimento dos outros nove em campo (o status do goleiro é assunto para outro texto de conjecturas inoportunas). Descobri então que o drible é no fim das contas, a máxima expressão de egoísmo, irresponsabilidade e mau comportamento dentro do que se consideram os esportes coletivos. Em um drible se arrisca muito – e é a decisão de um que pode acarretar conseqüências para todos – é, em suma, um “jogo dentro do jogo”: o driblador apostas as fichas (não só as suas, mas de toda sua equipe) de que pode, por circunstancia, conjuntural ou estrutural, superar seu (s) marcador (es) O objetivo último – o gol – foi ao menos momentaneamente posto de lado.
Comecei a pensar em alguns nomes representativos dessa classe egocêntrica: Garrincha, Pelé, Robinho, Cantona, Zidane, Davids, Riquelme, Messi, C. Ronaldo... e mesmo após tantas evidências apontando a incoerência do ato de driblar, não tive outra escolha a não ser agradecer a esses auto centrados e irresponsáveis mitos dessa malfadada arte, esse rol de anti-heróis. E bem dizer por fim, o drible!

José

2 comentários:

  1. pota q foda vc escreve melhor q o silvio santos na epoca q escrevia os roteiros do Ivo Holanda

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Uhmm... na verdade,