domingo, 27 de setembro de 2009

O Voluntariado é simplesmente o vácuo do Estado?

Somente aos 21 anos de idade decidi me engajar em um trabalho voluntário. Sério. Periódico. Durante algum tempo colhi os frutos inconscientes de estar cumprindo minha parte social, apesar de acreditar que a grande mudança só ocorre em conjunto – à despeito da inegável validade do ato individual e da contribuição da pequena parte que todos podemos fazer.
Retomando, estava convencido do papel que cumpria, até que uma discussão envolvendo serviço social, estado mínimo e desigualdade veio me perturbar. Diziam eles:

“O Voluntariado não é uma boa prática. Em alguns casos, ele empurra para a sociedade civil deveres que o Estado deve exercer. Incentivar o voluntariado é perpetuar a incompetência estatal e quem sabe, aprofundá-la.”

E ainda,

“O Voluntariado leva a práticas pulverizadas que tem um pequeno resultado local. Ao criar centenas, milhares de organizações, ele aumenta a burocracia e atua no sentido de desagregar movimentos maiores, que em tese teriam mais poder, político ou social.”

Analisando a motivação primeva, que leva alguém ao Voluntariado, comecei a desnudar alguns aspectos desse movimento: O voluntariado é, do meu ponto de vista, a ação descentralizada, de caráter eminentemente filantrópico, voltada para o indivíduo ou grupo de indivíduos necessitados, sejam eles amparados pelo poder público ou não.
Essa característica, a fraternidade, a ação voltada para o próximo, é correlata, ao menos no plano teórico, à aspiração das grandes religiões de salvação, que Weber destrinchou a quase um século atrás. Segundo Max Weber, a fraternidade universal despersonalizou o amor, objetivou-o. O resultado foi o mesmo alcançado pelo capitalismo – a incompatibilidade com uma ética da fraternidade pessoal – só que por outro caminho. O amor universal acaba desvalorizando o amor como sentimento pessoal, pois não escolhe alvo, se generaliza como preceito global. Além disso, o acosmismo, a visão de que o mundo material é apenas uma ilusão, reitera o princípio de que tudo deste mundo, inclusive o amor fraternal é menor, pelo menos, do que está no plano superior(no céu).
A fraternidade do Voluntariado, entretanto, implica uma relação pessoal forte. Ele é motivado por convicções pessoais – é apartidário, facultativo, espontâneo, completamente neutro quanto à sua causa. Acredito que isso assegura à esfera moral do Voluntariado uma boa interface. O que está no cerne mesmo do movimento é energia de mudança essencialmente voltada para o bem.
A questão macropolítica, todavia, resta entravada. Em alguns casos, é verdade sim, que a ação da sociedade civil, bem ou mal organizada, faz o papel do Estado, seja assumindo completamente o papel deste, seja porque aquele acredita que deve complementar determinada área carente. Vislumbro entretanto, resultados diferentes no que toca à argumentação de que esse movimento perpetua a irresponsabilidade estatal. No mais das vezes, o Voluntariado chama a atenção do grande público, graças ao seu caráter especial – e a opinião pública, quando provocada, leva sim, questionamentos ao Estado. Chamar a atenção das massas e do Estado para um problema que deveria ser de responsabilidade pública é um ótimo começo, para que as coisas mudem. Não defendo, mesmo assim, que o Voluntariado um dia deixe de existir, quando o Estado tiver assumido integralmente suas responsabilidades. Um equilíbrio entre ação pública e ação coletiva organizada me parece o ideal. Centralizar demais o poder nunca foi uma boa idéia, e abrir mão do espaço de ação social conquistado pelas ONG’S ao longo de uma luta por direitos civis que ainda não acabou, parece uma idéia pior ainda.
Como sempre, é uma questão de achar o equilíbrio.

José

3 comentários:

  1. Mas será que com o trabalho voluntario,há realmente a possibilidade de chamar a atenção das massas ?
    concordo que muitos direitos e conquistas foram obtidos através desse tipo de iniciativa,mas a questão política envolvida é complexa.
    fica o questionamento

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  2. Concordo com o fechamento do texto, o equilíbrio entre ambas as ações é sem dúvida a alternativa que mais parece funcionar. Pelo menos até onde vai o campo da teoria.

    Sobre o indivíduo voluntário, penso que assim como para Kal-El de Krypton, há um fundo de esgoísmo em suas ações, por mais benígnas e bem vindas que essas possam ser.

    Abraço,
    John C. Muras.

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  3. Adorei o texto!
    Em parte concordo com o Murilo aqui em cima.
    Lembro-me q em meus saudosos tempos de adolescência eu só acreditava na força da massa, unida para tomar o poder e dividir igualitariamente as riquezas. Hoje minha visão de mundo diz que pouco é muito e que o pouco que faço, seja voluntariamente ou em meu trabalho remunerado, já é um exemplo dentre tantos maus exemplos.
    Assim, pra mim o trabalho voluntário tem um "q" de egoismo, já que viso satisfazer minha consciência.
    BJ
    Lu

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Uhmm... na verdade,